O Prazer do Sacrifício
No nosso tempo histórico, no capitalismo de mercado, nos nossos estados Neo-liberais, nas nossas condutas e estilos de vida, o hedonismo aparece como um elemento marcante.
Há pouca paciência para sacrifícios, em geral, mas sobretudo e na minha opinião na nossa geração.
Fomos educados num tempo de comida rápida, relações rápidas, espaços encurtados pela rapidez de um tempo em ebulição. Não esperamos 3 dias pelo carteiro, recebemos um e-mail instantaneamente. Não temos que cortar lenha para aquecer a comida. Não temos que costurar a nossa roupa nem fazer camisolas à mão. Queremos agora, temos agora…e aceitamos pouco os atrasos da incompetência ou os adiamentos (quando não são por nós determinados).
É cómodo. Quase sempre vivemos assim e há sempre o metro a passar dentro de um punhado de minutos…
Nada contra tampouco. É sinal da evolução da técnica e das relações sociais.
A razão pela qual falo disto e porque penso que esta questão tem relevância neste espaço de opinião, é a relacionada falta de espírito de sacrifício em actividades que pressupõe militância e em que o hedonismo só existe se lhe preceder trabalho e entrega quotidiana.
No Hip Hop, em qualquer das suas vertentes ou formas de expressão, exige-se esse espírito e essa entrega. Exige-se uma rotina de trabalho, uma disciplina e um método. Treino como para qualquer outra actividade artística ou até desportiva.
Para nos superarmos, para competir, para evoluir de dia para dia, temos de nos entregar à técnica, ao estudo, à criação e ao método.
Mesmo que seja uma escolha nossa fazer rap (por exemplo, porque podia falar de qualquer outra actividade ligada ao Hip Hop) e não uma obrigação, como ir à escola ou levar o lixo à rua (=P), o sacrifício não é algo que nele não exista. O rap exige trabalho, exige que passemos horas em repetição ou a aperfeiçoar as nossas fragilidades.
Se não gostamos da nossa escrita e só valem 3 rimas das 16 que escrevemos, amanhã escrevemos o dobro, ou o triplo, experimentamos novos métodos, inovamos, tentamos, até que tenhamos 16 boas rimas no caderno. E depois disso escrevemos mais, sempre mais, e rimamos mais vezes, e tornamo-nos mais exigentes ainda. Subimos a fasquia, ficamos viciados. Custa, desilude, desmotiva por vezes. Gasta-se tempo. Tempo que poderia servir para praticar o hedonismo, mas não deixamos a militância se é o rap que nos dá pica.
Ninguém diz que é divertido repetir a mesma rima 500 vezes até que saia fluida como a imaginamos. Ninguém diz que é divertido andar a carregar material, a desmontar computadores, a gravar, trocar, transportar, pedir, conseguir, comprar cd's quando se faz, perde, ganha, troca, melhora, adapta, sequencia, um beat. Ninguém diz que tem piada quando o autocarro tarda, quando o palco do concerto é uma merda, quando o som tem ruído, o tipo é chato, quando não há saldo no telemóvel para pedir emprestada aquela coisa mesmo importante, etc…
…Mas não há rosas sem espinhos e o rap não é só festa…antes da festa há trabalho.
O rap bom tarda em sair, tarda em ser ouvido, como tarda a esperada recompensa, a visibilidade e os holofotes. Sendo que mesmo aí não está provado que desapareçam os espinhos…e até é bem provável que aumentem em muitos aspectos.
Gosto de pensar que o rap e os rappers, o Hip Hop e as suas manifestações, são como o vinho do porto e sabem melhor quando amadurecem.
Não estou a falar de espera…estou a falar de trabalho! Estou a falar de pôr menos as culpas no material, ou na falta dele, no preconceito colectivo com a novidade, na falta de tempo, na falta de dinheiro, nos monopólios editoriais, nas exclusões por critérios variados, etc… Estou a pedir esforço e prazer na evolução. Estou a pedir bom rap!
Eu acho que há muita vontade de que as coisas apareçam feitas. Há pouco trabalho e muita sede de frutos. Vejo muita pressa e pouca consistência e tenho pena que o sacrifício exigido nestas actividades não seja visto como uma forma de hedonismo também.
Não há nada melhor do que fazer coisas criativas precisamente porque o processo já é uma compensação, já é fruição. Não temos de ter um objectivo definido para nos divertirmos enquanto fazemos. Não temos de ter um destino para curtir o caminho. Mas quando chegamos onde queremos o prazer é maior! Se nos propomos temos de nos cumprir. É esse o prazer do sacrifício.
Capicua - SYZYGY