

Corri descalço pelo mundo, vi o por do sol na praia, vi um sorriso por entre as lágrimas de uma criança, vi o amor numa troca de olhares, senti o calor do sol e o frio do mar na minha pele…
Apesar de todas as adversidades que encontrei, nenhuma parecia capaz de me deter… Dizem que as cercas foram feitas para os que não sabem voar… Mesmo sem asas, um dia os meus pés afastaram-se do chão, toquei no azul do céu com um salto, sorri para as estrelas e falei durante horas com a lua… Toda a luta, todo o sangue e suor, todas as investidas inglórias estão gravadas em mim como um mapa, cicatrizes que nunca foram apagadas do meu corpo… As cicatrizes servem para me lembrar que o passado ainda é recente…
Memórias e mais memórias, umas boas, outras não, mas não passam disso, memórias… Memórias que continuarão a ser apenas memórias de um passado, não serão mais a razão das minhas lágrimas no presente… Olhar em frente, sorrir, sentir intensamente, viver unicamente pelo prazer da vida… Encontrar na espontaneidade de um sorriso uma razão para sorrir também… As minhas cicatrizes seguir-me-ão vá para onde vá, mas nunca mais serão obstáculos, mas sim aliados nesta batalha que estou a travar…
Luto contra mim próprio. Luto porque acredito. Luto para acreditar. Acredito para sentir. Sinto para acreditar que nada é impossível. O meu pior inimigo sou e sempre serei eu mesmo, o maior obstáculo que alguma vez enfrentarei e o único capaz de se interpor entre mim e tudo aquilo que persigo.
As cicatrizes que carrego comigo lembram-me do percurso que escolhi, de todas as quedas que dei, de todas as vezes em que me pus a pé depois de ter caído e de todos os obstáculos que ultrapassei com sucesso… Estou arrependido? Apenas de todas as lágrimas que a minha face alguma vez viu correr… Corriam pela sua vida, viviam para aquela corrida e desvanecer-se-iam em breve… Molhavam-me a cara por instantes e tentavam que as cicatrizes seguissem o mesmo caminho que elas e se desvanecessem também, mas elas impunham a sua vontade de ficar e continuar a ensinar-me…
Já molhei as calças quando passeava a beira-mar, já ri até me doer a barriga, já chorei de alegria, já vi o amanhecer, já fiz guerra com almofadas, já me deitei na areia e fiquei a olhar para as estrelas toda a noite… Já me enganei a mim mesmo, já chorei numa despedida, já deixei algumas palavras por dizer, já fiz alguém de quem gostava chorar, mas apesar de tudo, o mundo continua a girar…
O sol nasce e põe-se, as pessoas seguem os seus caminhos, os ponteiros do relógio continuam a girar sempre para o mesmo sentido, a vida continua, alheia a tudo e a todos e não há nada que possamos fazer para que pare por um instante…
E se tudo se tudo terminar? E se o sol não voltar a nascer? E se não houver um amanhã?
(Não tem MSN)
